Pra mim o Domingo durou um mês. Eu tinha 8 anos. Não sei dizer se foi na segunda, um dia após a morte do maior ídolo brasileiro dos últimos 30 anos, creio que tenha sido no sábado seguinte a morte.
O domingo foi duro. Uma falta de luz fez as imagens do acidente fatal só serem vistas horas depois. Eu acordei perguntei para o meu pai como tava a corrida. Me lembro que, sério, ele disse que Senna tinha batido. Minha pergunta foi como tinha sido. Meu pai tava preparando um churrasco. O domingo tinha um lindo sol, céu azul. Ele falou que o acidente tinha sido grave. As notícias que chegavam não eram animadoras. Minha mãe começou a rezar. Eu não queria acreditar.
Na foto, Senna ergue o troféu de sua primeira vitória no Brasil. Uma corrida inesquecível em sexta marcha.
A luz voltou e logo a TV Globo entrou com um plantão. Roberto Cabrini estava em Bologna, Itália, e anuncia a morte do mito. Eu não consigo mais ficar em casa, queria acordar do sonho ruim. Queria sair do torpor, queria coisas diferentes pra pensar. Mas minha cabeça de criança só pensava no ídolo. Demos uma volta pela cidade. Lembro que passamos na casa de um amigo do meu pai, já falecido, e o comentário foi: “Um cara jovem, com saúde, morrer desse jeito.” Eu queria esquecer.
Eu não lembro como foi o resto da manha. Não sei o motivo, as lembranças são confusas. Sei que todos desciam as escadas, eram as crianças do turno da tarde e os adolescentes do turno da manha. Durante aquela semana uma musica tocava e emocionava a todos. Não sei quem começou, como começou, só sei que todos cantavam um timido e sincero, Valeu Senna!
Esse momento tá guardado na minha cabeça sempre que lembro da morte de Senna. Não é a curva fatal. O Muro. Ou Ímola. Tinha 8 anos. O primeiro título de Senna foi em 1988. Eu não tinha noção de nada. Em 1990 veio o segundo título. Em 1991 o terceiro, com uma corrida memorável no Brasil. Eu tinha Senna como algo imortal. E de fato o é.
Escrevo esse texto vendo vídeos para ilustrar esse post. São 5h 30 da manha, e várias vezes parei de escrever para limpar minhas lágrimas. Caráter, dedicação, fibra, solidariedade, orgulho. Algumas palavras que facilmente associo a imagem de Senna.
Ele teve enterro com honras de chefe de estado. O nosso último Grande Homem enterrado. O brilho do triste olhar de Senna é eterno. Que as novas gerações jamais esqueçam o mito. O Brasil é pobre e mesquinho.
Senna morreu em um final de semana trágico. Na Sexta-feira, Rubens Barrichello sai da pista e bate con violência. Roland Ratzenberg morre no sábado 30 de abril. Senna não queria correr, mas jamais Senna queria ser taxado de perdedor, fraco, coisas que a história dele mostram que ele nunca foi.
G1 relembra a morte do piloto.Fotos: Wikipédia
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Pingback on Mai 1st, 2008 at 7:33 am
[...] Thales Barreto [pt] reminds readers that 14 years ago today Ayrton Senna, a Brazilian racing driver and triple Formula One world champion, was dying in a fatal accident in at Imola. “Character, dedication, solidarity, energy, pride. I easily associate Senna's image with some of these words. He had a head of state like funeral. Our last Big Man was buried. The brightness of Senna's sad eyes is eternal. I wish the new generations will never forget the myth. Brazil is poor and petty.” Posted by Paula Góes Share This [...]
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Pingback on Mai 1st, 2008 at 7:46 am
[...] um de seus grandes heróis. Imagino que a blogosfera estará em lágrimas hoje. Começando com Thales Barreto, que tinha apenas 8 anos em primeiro de maio de 1994, mas guarda a data viva na lembrança e hoje [...]
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Pingback on Mai 1st, 2008 at 6:51 pm
[...] Maio 1, 2008 por giovannicaprio O Blog do Giovanni Caprionão poderia se esquecer de uma data tão marcante. Não vou criar nenhum texto, mas sim linkar para o blog do Thales Barreto, o Simulações. [...]

















Maio 1, 2008 at 9:25 am
É a primeira pessoa que encontro que recorda do Ayrton nesses 14 anos sem ele!!
Maio 1, 2008 at 10:56 am
Com voz embargada leio em voz alta seu texto, na hora do nosso chimarrão, compartilhando-o com minha esposa. Lágrimas ameaçam brotar por aqui. Estava mais preocupado hoje pela manhã em ler artigos sobre a repercussão da vitória do Corinthians/Mano que só fui lembrar do Senna, quando entrei no seu blog.
Parabéns rapaz por expressar suas lembranças com clareza.
Maio 1, 2008 at 3:47 pm
Eu era pequena, se quer sabia o que era uma corrida. Tudo que soube do Senna tiveram base em comentários das pessoas da minha familia, ou de reportagens na TV.
Lembro com pouca precisão o que aconteceu naquele dia, na verdade só a repercussão do que as pessoas falavam.
Ler o seu Blog hoje me traz Saudade……Saudade daquilo que não sei caracterizar, mas ao terminar de ler o seu texto procuro palavras pra dizer o quanto estou emocionada.
Concordo com a Vanessa, e até te falei, você é a única pessoa que eu conheço que tem essa Memória. E o mais importante, sabe usá-la para descrever bons textos, nos fazendo recordar de muitos momentos…e de pessoas inesquecíveis, como o Senna!!!
Obrigada Thales…por ser quem você é, e por descrever quem foi o Mito Ayrton Senna!!
*** ” Primeiro era chegar a fórmula 1. Depois, fazer uma pole, vencer uma corrida, ser campeão. Aos poucos, fui preenchendo todos esses sonhos.” Ayrton Senna
Maio 1, 2008 at 6:40 pm
Eu tinha 4 anos na época, lembro que a notícia tinha feito o dia parar. A Tv mostrava cenas do Senna o tempo todo que parecia que ele ainda estava vivo.
Lembro de uma cena:
Na segunda/feira eu dise pro meu pai:
-é mentira, olha ele ali(apontando pra tv), o Senna não morreu não…
Era só uma imagem recuperada.
Muito bom o texto Thales Barreto.
Maio 1, 2008 at 6:54 pm
bah, eu tinha 5 anos e morava em Israel, eu vi toda a corrida pela televisão, inclusive a cena da batida… me lembro como se fosse hj, depois disso perdi a tesão pela fórmula 1.
Maio 1, 2008 at 10:04 pm
Eu gostava daquelas manhãs de domingo. Acordava e ia ver as corridas. Realmente Senna era um ídolo e sua morte foi trágica para todos. É triste até hoje, mas ele morreu fazendo o que melhor sabia e o que mais gostava.
Maio 1, 2008 at 11:17 pm
Simplesmente parabéns rapaz! Encontrei por acaso um belo blog hoje e pretendo acessá-lo freqüentemente.
Sobre Senna, que as lembranças falem por mim.
Maio 2, 2008 at 12:16 am
E com 9 anos eu vivenciei minha segunda grande perda. Sim, eu não o conhecia pessoalmente, não eramos parentes…mas ele fazia parte da minha vida, da familia, eu corria para ver ele em todas as vezes.
E nao parecia que era de verdade, a sensaçao era de que na próxima corrida ele estaria de volta…
Maio 2, 2008 at 4:53 pm
Foi bastante triste perder o Senna. Posso dizer que foi minha primeira perda. Até então eu não sabia o que era morte, não assim, de perto, pelo menos. Lembro-me de que chorei durante uma semana sem parar, insconsolavelmente. Não poderia esquecer algo que me marcou tão fundo: seja pela alegrias das vitórias, que nunca mais nós, brasileiros, pudemos voltar a sentir; seja pela primeira grande tristeza e perda irreparável da minha vida. O bom é que o tempo apaga tudo, ficam só as boas lembranças ao invés da tristeza!